artigo lúcido do Marcos Manhães.
Política de Cinema erra absurdamente achando que pondo dinheiro nas produtoras que fizeram um sucesso garantem outro sucesso.
Assunto: [CINEBRASIL] ANCINE:renda do cinema brasileiro encolhe 30% em 2011
Responder A: cinemabrasil@cinemabrasil.org.br
Como tínhamos afirmado, quem fez 143 ou 141 milhões de espectadores
foi o cinema em geral, não o cinema brasileiro, como foi dado
no jornal O GLOBO e nas redes sociais. VEJAM ABAIXO EM #####.
A ANCINE agora dá os dados oficiais. 143,9 milhões de espectadores
para os filmes de todas as nações, em cinemas do nosso país (onde
historicamente entre 80 e 85% de filmes norte-americanos, ela não
deu este detalhe). Destes, em 2011, apenas 12% (DOZE POR CENTO !)
foi ocupação com filmes brasileiros, menos de 18 milhões de
espectadores, com uma renda 30% abaixo da renda dos filmes
brasileiros em 2010.
Algo precisa ser feito urgentemente. Antes era o filme brasileiro
de produção independente (sem que o agente econômico seja a TV),
que precisava ser salvo, MAS AGORA, é o cinema brasileiro em geral
que precisa ser salvo. A renda encolheu 30%. Isso é grave.
Também não é fornecido oficialmente que, dentro destes
cerca de 12% de ocupação do cinema brasileiro no mercado de
distribuição em salas de exibição comerciais, predominam (no
que tange a bilheteria) - até última informação que temos - aí
cerca de 90% de filmes feitos com coprodução ou algum tipo de
contrato determinante com a TV. O que resulta em reservar ao
filme independente apenas cerca de 1% do mercado de salas.
Quando a ANCINE foi criada, a ocupação beirava os 10% e numa
proporção majoritária de filmes de produção independente(da TV).
HOJE, NEM COM A FORÇA DA TV, a bilheteria está crescendo, mas
sim despencando 30% de um ano para outro. Em 2003 teve um pico
acima de 20% mas foi caindo de novo. NO QUE a TV está errando
nas suas parcerias com as equipes brasileiras, roteirisas e
diretores que se filiam às produtoras inDEPENDENTES ?
É PRECISO VER ISSO.
Resumo da Ópera:
A ocupação cresceu em 10 anos 2 pontos percentuais, ou seja
de cerca de 10 para cerca de 12%. De 2010 para 2011 caiu 30%.
NO QUE, os editais públicos, ao apostarem como têm apostado,
em filmes ditos "de mercado" TÊM ERRADO SOLENEMENTE, não
garantindo que o mercado de filmes brasileiros se expanda,
ao contrário, gerando uma queda expressiva como a de 2011?
A resposta está em filmes como DIVÃ, CILADA.COM, AVENTURAS
DE AGAMENON, DE PERNAS PARA O AR, SE EU FOSSE VOCÊ 10, são
vários os exemplos de filmes assim em que os editais têm
colocado dinheiro PÚBLICO. O Público até ainda vai, mas ele
não se encanta com filmes que sempre lhe dão MAIS DO MESMO.
Não adianta o FSA priorizar empresas que já fizeram mais
de 1 milhão de espectadores, porque isso não tem garantido
nada, nunca garantiu em lugar nenhum do mundo. É mais do
que sabido que la nos EUA, mesmo os grandes estúdios como
SONY, DISNEY, FOX, etc, produzem 90 fracassos para cada
10 sucessos. Fazem cerca de 400 a 600 filmes por ano nos
grandes estúdios (os indies fazem entre 1000 a 1500)
e só um em cada 10 conquista o público. E conquista na
hora em que oferece a ele aquilo DO QUE ELE PRECISA,
que é *aquilo que ele ainda não tem*. As pesquisas que
as distribuidoras e financiadoras do cinema brasileiro
fazem estão MAL FORMATADAS; é preciso ter coragem e
sabedoria para elas admitirem isso, mas estão. O que
se tem de AFERIR não é "o que mais você gosta?", mas
"o que você não tem visto que gostaria de ver?", e,
diga-se de passagem, NEM ISSO será garantia de coisa
alguma.
"APOSTAR NO TALENTO DE PROFISSIONAIS DO CINEMA, tanto
de roteiristas (na escolha de bons roteiros, por que
não procurar roteiros prontos de profissionais
experientes num banco de roteiros?) como de DIRETORES
(que podem ser roteiristas, sem pruridos corporativistas,
pelamordedeus), quando apresentam projetos independentes
e SE DAR AO DIREITO DE ERRAR" - deve antes tarde do que
nunca ser o lema das financiadoras (editais, produtoras
"industriais", patrocinadores diretos, etc) no BRASIL.
Nos países desenvolvidos, como EUA, França, é assim.
Na França, há algum tempo atrás, havia uma FILA,
acreditem se quiserem, e todo projeto era financiado
pelo Estado, na ordem cronológica. Nem se quer isso.
A SUGESTÃO:
DAR ao cineasta brasileiro a chance de fazer o seu
filme. Ao iniciante a chance de fazer o seu curta,
sem julgamentos subjetivos de se isso vai ser bom
ou mal para o público ou para a crítica. Deixa o cara
fazer, e o público e a crítica vai aprová-lo ou não.
Ao veterano, àquele que fez muito curta (e curta em
35 mm ou câmera profissional HDCAM algo assim, com
equipe mínima com DRT, registro profissional, com
CPB, CRT obtido na ANCINE, tudo, para que mostre
que o cara conhece o babado, a "indústria", que sabe
lidar com a engrenagem do Cinema), DAR LHE CRÉDITO,
pois é um profissional de credibilidade que não é
digno de crédito nem do Estado.
E não falo só de veterano em curtas, mas de veterano
em longas também. Quantos deles estão reclamando de não
estarem encontrando apoio para fazerem o filme deles?
Nélson Pereira do Santos não o único. Olhem pros lados.
O público é quem melhor aponta se o cara está lhe
dando aquilo que ele precisa. Testes de público, com
o público *do filme*, e um ajuste fino, se necessário
antes do lançamento nas salas. Um bom método. Ou,
se o grande público rejeitar, lançar só para um gueto
ou nem lançar, assumir o prejuízo como os americanos.
Em cada 10, um conquista o público; 9 são "flops".
HOJE, como já disse Roberto Farias, todo o benefício
vai para o DISTRIBUIDOR ESTRANGEIRO (que recebe 70%
de desconto na transferência de divisas, se investir
NO FILME QUE ELE QUER) e para as EMPRESAS DE OUTROS
RAMOS FORA DO CINEMA (Estatais do petróleo, disso e
daquilo, e grandes empresas privadas, recebendo de
100 a 125% do que investiu de seu imposto, de volta
numa peça de publicidade para a marca delas, que é
o filme em que elas decidiram investir) e o CINEASTA
é tratado como se não soubesse nada de nada, com
editais e contratos draconianos, sempre duvidando da
sua capacidade de filmar, de poder acertar com o seu
público. ESTE É UM ERRO BÁSICO, QUESTÃO DE FUNDO QUE
FOI ABANDONADA, a partir das diversas oportunidades
pulverizadas com glamurizações e purpurinizações em
co-produções atraentes, que pelo menos têm cumprido
a missão de dar empregos ao setor, MAS, por tremendo
equívoco, o de não valorizar O ERRO do profissional,
tem se furtado de conhecer o ACERTO do profissional
em algumas de suas obras. Só errando é que se acerta.
INVESTINDO NO CINEASTA, OU NA DUPLA DIRETOR/ROTEIRISTA
é que vamos reverter este jogo.
Achar que distribuidoras estrangeiras escolhem melhor
filmes é uma ingenuidade. Há distribuidoras brasileiras
que acertam, como a Downtown, mas que às vezes também
erram feio, priorizando o sucesso de mais de 1 milhão
para colocar na carteira dela, e conseguir sobreviver
em meio a critérios equivocados na raiz do problema.
As distribuidoras brasileiras precisam ERRAR MAIS.
E as estrangeiras, *se quisessem mesmo o bem do cinema
brasileiro*, aplicavam aqui o que suas matrizes aplicam
lá: apostariam em quantidade, para descobrir qualidade.
Não é uma crítica à ANCINE, mas uma avaliação GERAL, de
um PARADIGMA errado que assola o cinema brasileiro, nas
estatais e similares como no financiamento de longas da
RIOFILME, editais públicos de toda natureza, e o crivo
de empresas privadas sobre filmes, de acordo com seus
interesses empresariais e previsões erradas de sucesso.
Justificam que o ano de 2011 foi atípico porque não
ocorreram os fenômenos de público, como o TROPA DE
ELITE 2 e NOSSO LAR, de em 2010, ou TROPA DE ELITE e
DOIS FILHOS DE FRANCISCO em outros anos. Mas então o
resultado do mercado não é fruto de um planejamento?
É fruto de existirem fenômenos? É disso que falo aqui.
O Tropa de Elite, o primeiro, era um BO no início,
apostaram nele, e ele trazia o que o povo não tinha
ainda experimentado, daí explodiu. Outro fenômeno
parecido foi o primeiro TAINÁ. Foram os primeiros
filmes do padre Marcelo Rossi. Não dá para prever
o que o público vai gostar. Gostou do Nosso Lar,
mas nem tanto dos outros que "embarcaram no filão".
O Brasil precisa produzir 200 filmes por ano, mas
filmes dos quais as financiadoras e distribuidoras não
"têm garantias" de sucesso, PORQUE NUNCA TERÃO, isso
já se comprovou ser uma falácia, gente. Precisa se
abrir à CORAGEM, ao TALENTO, à EXPERIÊNCIA do Cineasta
Brasileiro que quer fazer uma PRODUÇÃO INDEPENDENTE,
sem crivos artísticos de profissionais da TV ou de
profissionais do Velho Cinema ou do Cinema Novo.
Claro, destoando aqui um pouco do Santeiro, que
prega que TODOS os filmes devem ser feitos, concordo
que haverá sempre uma SELEÇÃO, por conta da escassez
de RECURSOS FINANCEIROS, mas nunca com o critério
equivocado que tem pautado FSAs e congêneres, de
se "MEDIR" o tamanho da "garantia de sucesso". ISSO
NÃO EXISTE. Empresas que fizeram MILHÕES de ingressos
no passado, como a produtora do Barreto, não emplacam
sucessos no presente. Isso não quer dizer que se
Bruno Barreto apresentar um projeto de filme, não
deva ser levado a sério. Não é isso. Deve, ele é
um cineasta independente, e se fizer com a produtora
do pai, pouco importa, deve ser financiado sim. O
QUE ESTÁ ERRADO é dar uma nota lá em cima "porque
a produtora é do Barreto", ou do Fernando Meirelles
ou deste ou daquele produtor que em certo momento
fez mais de um milhão de espectadores. ENFIM, fiquem
com a matéria da UNIVERSO ON LINE - UOL e confiram
os dados oficiais. E rebatam, se puderem.
Grande Abraço. Sorte para nós!
Marcos Manhães Marins